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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Entenda a Crise Econômica Mundial 2008 e 2009

Especial: Entenda a Crise Econômica Mundial 2008 e 2009    

Opinião: Marcus Kollbrunner - 16 de março de 2009 

Que crise é essa?
Essa é a mais profunda crise da economia mundial em 80 anos. Ainda não chegamos ao fundo do poço. Pode superar até a mais profunda crise do capitalismo mundial, a de 1929-33. As previsões mostram que a economia mundial vai se contrair, ao invés de se expandir, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.
Os efeitos ainda não estão claros, mas já vimos milhões de trabalhadores perderam seus empregos no mundo inteiro. A OIT (Organização Inter­na­cional do Trabalho, órgão da ONU) prevê que haverá um aumento de 51 milhões no número de desempregados no mundo somente nesse ano. Mas como todas as previsões feitas sobre a crise, ela tende a subestimar a situação e se tornar obsoleta depois de algumas semanas. Só na China, 26 milhões de trabalhadores migrantes (que vieram da zona rural para procurar emprego nas cidades) perderam seus empregos nos últimos meses.

De quem é a culpa da crise?
A crise tem suas raízes no próprio sistema econômico em que vivemos, o capitalismo. Não é uma catástrofe natural, é o produto de um sistema econômico e social que não funciona.
A crise tem dois aspectos fundamentais que são interligados. Primeiro, temos uma crise financeira profunda, que é mais grave do que a dos anos 30. Segundo, há uma crise de “superprodução”, que Marx descreveu já no século XIX.
O capitalismo é um sistema em que uma ínfima minoria da população controla os meios de produção. O objetivo do sistema é gerar lucros para seus donos. Esses lucros vêm da exploração dos trabalhadores, que não recebem de acordo com o valor que produzem. O capitalista fica com a chamada ‘mais-valia’ (o valor que o trabalhador produz além do que recebe como salário), que é a fonte do seu lucro. É daí que ele tira o dinheiro para seu enriquecimento e para novos investimentos.
Para sobreviver no mercado, o capitalista é forçado a acumular lucros cada vez maiores. Se não faz isso, ele não consegue investir na produção mais moderna, e sucumbe na concorrência. Por isso, ele explora cada vez mais os trabalhadores, para garantir seus lucros.
A questão é que isso gera uma tendência de que produção aumenta mais rápido do que a os trabalhadores são capazes de consumir. Quando o sistema entra em crise, os capitalistas atacam mais ainda os direitos dos trabalhadores, e assim acabam reduzindo ainda mais seu mercado.
No Brasil foram 800 mil empregos formais que sumiram nos últimos 4 meses, e muitos mais trabalhadores, além disso, viram suas condições piorarem, com redução dos salários. Isso afeta diretamente o consumo e piora a crise.
Em praticamente todos os setores industriais do mundo existe um excesso de capacidade. Calcula-se, por exemplo, que na China o excesso de capacidade de produção de aço é maior do que a produção total de aço dos EUA! Ou seja, seria possível fechar todas as siderúrgicas dos EUA sem que isso levasse a uma escassez de aço.
O sentido da crise neste sistema perverso é exatamente o de livrar o sistema do excesso de capital existente sob a forma de máquinas, fábricas e também de trabalhadores que não geram mais lucro suficiente. O peso da crise cai assim sobre os trabalhadores.
Qual é o papel do sistema financeiro na crise?
O capitalismo tem um sistema de crédito avançado, sem o qual ele não funciona. Imagine, por exemplo, pagar uma grande fábrica de automóveis à vista. Mas o crédito ajuda também a sustentar o consumo, especialmente de imóveis, carros, móveis, etc. O crédito faz com que o consumo temporariamente possa ir além da capacidade de pagamento imediato. Marx dizia que o crédito funciona como um elástico, mas se esticar ele demais, ele acaba se rompendo.
Desde os anos 70, a produção de mercadorias gera menos lucros. Os capitalistas passaram então a atacar os direitos conquistados pelos trabalhadores aumentando assim a sua exploração (o que ficou conhecido como neoliberalismo). No entanto, a piora das condições dos trabalhadores limita o consumo. O lucro recuperado não podia ser investido em mais produção, então acabou investido em mera especulação financeira. Isso foi reforçado pela política neoliberal de desregulamentação do mercado financeiro e de privatizações, abrindo para bolhas especulativas nos mercados de ações, imobiliários, de commodities, etc.
Nesse período, quando o sistema se aproximava de uma crise, os governos responderam com mais crédito, estimulando os consumidores a consumir cada vez mais além da sua capacidade de pagar. A baixa inflação mundial, por causa dos investimentos em produção em países como China, onde os salários eram muito mais baixos, permitiu que os juros por um período fossem muito baixos no mundo.
Mas, o efeito disso não foi apenas o de empurrar a crise com a barriga, mas acabou criando as bases para uma crise muito mais profunda, já que uma montanha de dívidas impagáveis foi sendo acumulada, com ajuda de instrumentos de especulação e créditos cada vez mais “exóticos”, os chamados derivativos.

Os pacotes de resgate dos governos vão ajudar?
Vale à pena notar como os pacotes de resgate mostram qual é a prioridade do sistema. A ONU apontou que com apenas 30 ou 40 bilhões de dólares por ano seria possível garantir que nenhuma pessoa no mundo tivesse que morrer de fome ou doenças relacionadas à fome, um mal que ainda mata 9 milhões de pessoas por ano. Mas, os governos sempre alegaram que esses recursos não existiam. Agora, com a crise dos bancos, não passa uma semana sem que seja anunciado algum novo pacote dez vezes maior para salvar os especuladores que desencadearam essa crise.
Mesmo aqui no Brasil a prioridade tem sido a mesma. Ao mesmo tempo em que alegava em sua propaganda que a crise ia ter um efeito limitado no país, o governo Lula liberou cem bilhões de reais para garantir o mercado de crédito dos bancos.
Porém, até o novo presidente dos EUA, Barack Obama, confessou que os gigantes pacotes não vão resolver a crise, só amenizá-la.
Os governos têm sido forçados a estatizar parcialmente bancos, mas somente com o intuito de transferir as perdas para o Estado enquanto os lucros vão se manter privados.
Para resolver a crise financeira de verdade, seria necessário estatizar os bancos sob o controle dos trabalhadores, garantindo que nenhum mutuário perca sua casa por inadimplência, mas sem indenizar os grandes tubarões e especuladores.
O que está sendo feito na verdade é a transferência dos “créditos podres” do setor privado para o Estado, aumentando enormemente a dívida pública e cobrindo as perdas dos especuladores.
Se não forem obrigados a isso, os governos não vão salvar pequenas poupanças ou os empregos de trabalhadores. A intenção da política deles é salvar o sistema e restaurar sua capacidade de continuar explorando os trabalhadores.
Se não nos livramos desse sistema, vamos ter que pagar por essa crise por muito tempo. Só esse ano, o déficit do orçamento federal dos EUA está estimado em 1,75 trilhões de dólares, valor maior do que o PIB do Brasil!

Qual tem sido a resposta dos trabalhadores?
Em vários países temos visto grandes protestos. Na Islândia, um dos países mais ricos do mundo, o governo e os banqueiros transformaram o país inteiro em um banco especulativo e agora ele literalmente quebrou. Os grandes protestos levaram à queda do governo. Em Guadalupe (um “departamento ultramarinho” francês no Caribe), os trabalhadores estão em uma greve geral que já dura um mês contra as demissões e o aumento de preços.
Na França houve uma greve geral no dia 29 de janeiro com 2,5 milhões de trabalhadores participando em manifestações. Na Irlanda uma manifestação de 120 mil pessoas na capital, Dublin, deve abrir caminho para uma greve geral de servidores públicos.
Mas, essas respostas são ainda tímidas diante dos ataques. Isso acontece porque, num primeiro momento de surpresa e choque diante da crise repentina e brutal, a maioria ainda tenta achar uma saída individual. Outro fator é o enfraquecimento da esquerda depois da queda do muro de Berlim em 1989. A idéia de que o socialismo havia falhado serviu de justificativa para que a grande maioria das direções dos antigos partidos de trabalhadores e dos sindicatos girasse à direita (como o PT e a CUT no Brasil), acomodando-se ao neoliberalismo ao invés de combatê-lo. Isso deixou os trabalhadores enfraquecidos organizativa e politicamente, mas não vai impedir a luta por muito tempo. A continuidade dos ataques vai forçar os trabalhadores a lutarem pelos seus direitos e durante esse processo os trabalhadores vão ter que forjar novas ferramentas de lutas.

O Brasil está mais preparado para enfrentar a crise?
O governo Lula tem feito tudo para manter a ilusão de que o Brasil sairá ileso da crise. Um fator central da popularidade do governo tem sido o crescimento nos últimos anos e para ter alguma chance de eleger um sucessor a Lula, a crise não pode explodir antes de 2010.
Em 19 de outubro do ano passado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que os analistas que achavam que o PIB brasileiro só cresceria 3,5% em 2009 eram pessimistas demais e deveriam “tomar Prozac” para ver se melhoravam! A média das previsões publicadas no último boletim Focus do Banco Central aponta para um crescimento de só 1,5% nesse ano. Contando com o crescimento populacional, um crescimento tão baixo significa um aumento do desemprego e da miséria.
Não tem como o Brasil não ser profundamente afetado pela crise. A economia brasileira depende muito de exportação de commodities, que tiveram os preços rebaixados com a crise. O crescimento também ocorreu graças a um grande influxo de capital especulativo nos últimos anos, que só se mantém por causa dos altíssimos juros no país, mas esses juros são um dos principais freios na economia. Com o aumento do desemprego, o consumo tenderá a cair e agravar a situação econômica.

Não é melhor ceder alguns direitos para salvar os empregos?
Não! Primeiramente, essa proposta vem dos capitalistas que tentam jogar os custos de uma crise que nós não causamos em cima das nossas próprias costas. Até Lula tem dito que essas empresas tiveram enormes lucros e deveriam usá-los ao invés de demitir. Mas a fala é uma e a prática tem sido muito diferente.
Veja só a situação das montadoras. Somente no primeiro semestre do ano passado, elas repassaram mais de nove bilhões de reais para suas matrizes nos EUA, Europa e Japão. Isso depois de ter tido bilhões de subsídios do Estado em forma de incentivos fiscais, infra-estrutura etc.
Quando chega a crise, a reação do governo federal foi de abrir uma linha de crédito especial para as montadoras de quatro bilhões, através do Banco do Brasil. O governo do estado de São Paulo completou com outros quatro bilhões.
A questão é: se os trabalhadores não lutarem contra isso, vamos pagar 100% do custo da crise. A luta vale a pena mesmo se o resultado seja o de diminuir o prejuízo.
Retirar direitos não garante nenhum emprego. Só garante que nós e nossos filhos teremos uma situação ainda mais difícil no futuro. A ameaça de desemprego é algo que sempre vai ser usado. Mesmo no período de crescimento os patrões falavam do “custo Brasil” e usavam a ameaça de mudar a produção para um estado onde os salários eram mais baixos, ou para fora do país. Por isso, preparavam a reforma trabalhista, para retirar direitos como 13°, férias, licença maternidade. Agora vão usar a crise para tirar o máximo de direitos que conseguirem.

Mas qual é a alternativa?
É necessário romper com a lógica de que o direito supremo da sociedade é o direito à propriedade de uma pequena minoria, pois isso significa o direito desses poucos destruírem a vida de milhões de trabalhadores e causar um enorme dano à sociedade.
As fábricas e locais de trabalho que não servem mais para gerar lucrospara o capitalismo podem ainda servir muito para produzir coisas úteis para a sociedade.
Por isso, temos que lutar para que as fábricas e locais de trabalho que são fechados ou implementam demissões em massas sejam estatizadas, sob o controle dos trabalhadores, para começar a produzir de acordo com a necessidade social, e não visando o lucro.
A jornada de trabalho deve ser reduzida, mas sem a redução de salário. Assim, mais pessoas trabalharão e a sociedade inteira ganha.
O governo não deve dar só palpites, mas sim tomar medidas para proibir empresas que receberam recursos públicos e tiveram grandes lucros de demitir, caso contrário elas devem ser estatizadas sob o controle dos trabalhadores.
Além disso, é necessário estatizar os bancos e instituições financeiras, não só como uma medida para superar a crise, mas para evitar a crise e bolhas especulativas. Assim podemos garantir crédito para pequenos agricultores, pequenas empresas e juros baixos. Uma estatização sob o controle dos trabalhadores, pois hoje os bancos públicos têm juros tão altos quanto os privados.
Essas medidas seriam os primeiros passos para romper com esse sistema e preparar o caminho para uma sociedade socialista.
Para que isso seja possível, é necessário unir a luta do local de trabalho com a de todos os trabalhadores. Só assim podemos desafiar o enorme poder que os capitalistas têm, com apoio da mídia, do poder judiciário, da polícia e dos governos. Para isso, devemos ter uma ferramenta política, um partido que oriente essa luta dos trabalhadores no sentido de uma luta por uma nova sociedade. 

sábado, 26 de junho de 2010

Entre mitos e verdades do atual momento hístórico brasileiro

Entre mitos e verdades do atual momento hístórico brasileiro
1- Sobre o superávit. Primeiro, superávit significa, em linguagem popular, lucro. Isso mesmo. O Brasil economizou para gerar lucro. Há mal nisso?
Contra ponto: Depende, precisamos avaliar alguns pontos, o primeiro, acho que deve ser "economizou me que?" economizar ai significa na minha visão deixar de investir em coisas como capital produtivo (seria ótimo para o Brasil uma malha férrea melhor) ou deixou de investir em saúde com novos hospitais, que tal salários dos professores ou que tal o fim do fator previdenciário e um aposentadoria mais justa? Outro ponto fundamental é para que se quer o superávit, normalmente quando ocorrem saldos positivos na balança comercial (esse superávit) eles são usados para pagar a dívida pública, a bancos internacionais como o BIRD ou a fundos como o FMI. Em fim, para mim esse economizar camufla o seguinte fato: Nossa sociedade subdesenvolvida está deixando de investir em seu desenvolvimento (social que é o único desenvolvimento real) para pagar as grandes corporações e paises desenvolvidos uma dívida unilateral, pois nessa conta não entra se quer o que saiu daqui quando éramos colônia e será que deixamos de ser? Ou pior, queremos acreditar que sim! Viva a seleção! Viva o Superávit! e viva ao Brasil oitava maior economia do planeta e quarto país mais desigual do mundo... viva... viva... viva...


2- Sobre a política conservadora. Sim, é uma merda não ter crédito a juros humanos, mas em economia é assim: para controlar a inflação, deve-se diminuir crédito. O que o governo pode fazer para inibir isso é aumentar a taxa de juros. A capacidade produtiva do Brasil não aguentaria um boom de consumo, os preços subiriam rapidamente;
Contra ponto: O que nos leva ao o que estamos fazendo com nosso superávit?! Além do mais os juros são altos para muitas coisas, mas principalmente para empréstimos financeiros. É absurdamente mais "barato" do ponto de vista dos juros, ter dinheiro para comprar algo do que para ter dinheiro para fazer qualquer coisa. É uma forma de se controlar para onde se vai crescer, direciona o capital para onde se quer. Construção civil, por exemplo.

3-Sobre considerar inchaço contratação de servidor público. Você deve ter trocado as bolas. Acho que isso é uma opinião da imprensa. O governo Lula é criticado justamente por abrir muitos concursos;
Contra ponto: Concordo, o Estado não tem de ser pequeno, devia ser absurdamente maior, alguns setores, dentro de uma lógica capitalista msm, são incapazes de funcionar com qualidade para toda população sendo privado, pois sua qualidade sempre estará condicionada ao custo de sua produção a exemplo: Educação e Saúde não simplesmente não funcionam do ponto de vista ético sendo mercadoria. Vide o caso da saúde nos EUA


4-Sobre a Vale. Concordo. Ela gerava 1% de lucro anual, por pura ingerência. Quem a privatizou foram os tucanos;
Contra ponto: Não entendi, mas certamente vender a vale foi prejuízo financeiro e só ver quanto ela lucrou durante a crise internacional. Tipo o capital em crise, os fundos monetários são transformados em ouro e a vale detem o domínio da exploração de uma das maiores reserva de ouro do mundo. Vide o caso da China e Índia que investiram maciçamente na extração de ouro durante a crise.

5-A Constituição de 88 foi votada (e não feita) por todos os representantes do povo na época. Lula e Dirceu nem sonhavam em chegar ao poder nacional;
Contra ponto: Não sei não, logo após lula foi candidato a presidência 89 e perdeu para Color.


6-Agricultura familiar atrelada a Blairos Maggis da vida, que dão a semente e o maquinário para as suas glebas. Estamos nas mãos de oligarquias agro-industriais. Dá uma visitada no Mato Grosso para ver se o bagulho não é doido? Produtos básicos são sobre-taxados, pois quem manda são os caras da bancada ruralista. O Brasil não é, de forma alguma, sul e sudeste. O poder de decisão desse país está mais para o centro.
Contra ponto: O poder de decisão vai estar, em um sistema de produção capitalista sobe governo democrático representativo (o nosso, por exemplo), vai estar a onde se produzir mais riqueza (dinheiro propriamente dito e estrutura produtiva, lembrando que no atual momento histórico em que vivemos o setor de serviços se torna estratégico: mídia por exemplo). O sudeste é, e o centro-sul está se tornando, espacialmente núcleo de produção de riqueza. Mas então por que a bancada ruralista tem tanta força no Brasil. Simples a explicação e complexa a solução: 1- O Brasil nunca passou por uma revolução, nem a burguesa, ou seja, os dominantes e dominados sempre foram os mesmos no Brasil. Mesmo os países capitalistas desenvolvidos passaram por revoluções onde essa relação, dominados e dominantes, foi profundamente alterada; 2- E mais importante, a agroindústria é uma submissão do campo ao espaço urbano industrial, pois atrela a produção agrícola necessariamente à produção industrial em moldes tecnicos inviáveis do ponto de vista financeiro
(principalmente para o pequeno agricultor) e ambiental, sejá de país desenvolvido ou não. A burguesia capitalista hoje transforma os campos em burgos. E já nos alertavam disso no século XVIII.

Um abraço a todos e espero ter contribuído.
Pedro Marinho

sábado, 15 de agosto de 2009

A quebra da GM, a opção de Obama e o fim de uma era.

Por: Robério Paulino, Professor de Economia Política e Economia Internacional- 06 de julho de 2009.

Não fechar nenhuma fábrica, manter os empregos e reconverter a produção
O que pareceria inacreditável há dois anos aconteceu: a GM, um ícone do que se chamou “Século Americano”, quebrou. Antes da crise global iniciada em 2008, sua solidez era profissão de fé entre pseudo-analistas de mercado. No entanto, depois de três processos de reestruturação sem grande sucesso desde 2000 e de perdas estimadas em US$ 88 bilhões no período, no último dia 1º de junho de 2009, a GM pediu concordata.
A montadora chegou a ser a maior e mais lucrativa companhia do mundo, é a maior empresa industrial dos EUA, com 243.000 funcionários, símbolo de seu poderio econômico. Junto com a Ford e a Chrysler, a GM sempre foi uma das gigantes na fabricação de automóveis, as máquinas que mudaram a face do século XX. Por isso, sua quebra tem um impacto profundo em termos econômicos e sociais e um grande simbolismo, suscitando inúmeras questões políticas, ideológicas, estratégicas e até ambientais.
Em primeiro lugar, demonstra que, ao contrário do que diziam muitos economistas e analistas apressados, a crise global que estalou em 2008 é muito mais que um simples desequilíbrio financeiro; é sim uma crise estrutural de época do capitalismo moderno.
É verdade que a GM fez escolhas erradas. Desconsiderando os alertas, apostou nos grandes utilitários esportivos, como os jipes Hummers. Quando o preço do petróleo disparou, chegando a 150 dólares o barril, e pela primeira vez os consumidores norte-americanos foram obrigados a optar por carros menores, a empresa foi pega no contrapé.

Parte da crise global
Com a crise global, as vendas desabaram quase verticalmente para todas as montadoras. Até maio, as vendas nos EUA estavam ainda em média 37% abaixo do patamar de maio de 2008. Para a GM, que já vinha avariada, o impacto foi, no entanto, muito maior. A quebra da GM, contudo, revela mais que falta de visão de longo prazo, ganância de retornos rápidos, irresponsabilidade ambiental e estratégias erradas. Ela é parte da profunda recessão mundial.
A crise global é também uma crise de superprodução, como aquelas descritas por Marx. A capacidade produtiva de carros mundo é de 71 milhões de veículos, mas a demanda está casa dos 50 milhões de unidades.
Não é possível vender o excesso de produção existente nos EUA, no Japão e na Alemanha em países emergentes, como a China, por um problema muito simples que é a falta de mercados internos consumidores mais amplos nestes países. Afinal, o segredo, a “vantagem comparativa” dos emergentes e do novo e selvagem capitalismo chinês é exatamente seus baixíssimos salários.
A bancarrota da GM revela também outra importante tendência, que é o flagrante processo de desindustrialização relativa que vivem os EUA nas últimas décadas. Com a globalização e a desregulamentação liberal, o capitalismo ianque descobriu o segredo para voltar a elevar suas margens de lucro: transferiu milhares de plantas e milhões de empregos para regiões e países de salários e custos mais baixos, como México e China. Aumentam assim enormemente seus lucros, mas deixam para trás nos EUA o fechamento de fábricas e desemprego.
Por outro lado, a introdução incessante de novas tecnologias e dos novos métodos de gerenciamento da produção enxuta oriundos do Japão, aos quais a indústria dos EUA foi obrigada a se converter para elevar sua produtividade, também causou desemprego estrutural. Ainda em 1995, a GM tinha 721.000 empregados no mundo, mais da metade deles nos EUA. Hoje, emprega apenas 240.000 no país e vai encolher mais.

Desindustrialização dos EUA
Dessa forma, o país dos velhos capitães de indústria vem lentamente dando lugar a um país de comércio e serviços, setor que paga salários bem mais baixos, e de administradores de dinheiro, de capital a juros. Os símbolos dos EUA já não serão a Ford, a GM, a GE, mas o Wall Mart, o Mcdonalds, o Citigroup salvo pelo Estado, a Intel produzindo na Ásia.
Uma grande contradição para o capitalismo, entretanto, é que robô é bem comportado e o trabalhador chinês, mexicano ou norte-americano não sindicalizado ou desempregado não fazem greve, mas também não compram. Tudo isso, junto com a financeirização da economia, eleva os lucros, mas também potencializa a instabilidade do sistema, gerando desemprego e miséria, concentrando renda, reduzindo a demanda, criando excesso de oferta e violentas e recorrentes crises de ajuste. Essa é a lei fundamental da acumulação capitalista, segundo Marx, que nos ajuda a entender a crise global e a quebra da General Motors.
A crise global e o emblemático colapso da GM também sinalizam a continuidade do declínio da hegemonia do capitalismo norte-americano no mundo. Além disso, elas indicam a estupidez do argumento neoliberal no longo prazo, cuja força era exatamente a associação com a potência do capitalismo dos EUA e a globalização por ele impulsionada.
Os EUA não deixarão de ser uma potência de primeira linha no curto prazo. Sua lenta decadência, no entanto, pode ser apenas disfarçada pela “estratégia da diplomacia” de Barack Obama. Em abril, mais carros foram vendidos na China que nos EUA e hoje grande parte dos déficits fiscal e do balanço de pagamentos do país é coberta pelos capitais acumulados na Ásia, investidos em papéis americanos. O balanço de poder no mundo parece começar a se mover em outra direção.

30 mil podem perder seus empregos
O novo plano de reestruturação, anunciado depois da concordata, prevê a demissão de 21.000 trabalhadores horistas entre os sindicalizados, o fechamento de 11 fábricas e a paralisação de mais 3. A imprensa, no entanto, tem falado de mais 8.000 mensalistas e de outros tantos cortes indiretos nas concessionárias, no setor de marketing e nas fornecedoras de autopeças. O plano prevê ainda a eliminação de bonificações, fim dos reajustes automáticos dos salários de acordo com a inflação e suspensão “voluntária” do direito de greve enquanto durar o pagamento de algumas parcelas de empréstimos do governo. Impõe, ademais, a dessindicalização em todo um ramo da companhia.
Este conjunto de medidas foi a contrapartida exigida pelo governo Obama para a injeção de mais de 51 bilhões de dólares por parte do governo até agora, o que poderá levar o Estado a controlar algo em torno de 70% das ações da empresa.
A aceitação de tal plano pelo sindicato nacional dos trabalhadores do setor automotivo (UAW) indica a que ponto chegou o apodrecimento do sindicalismo do país, negando a grande tradição de luta, observada nas décadas de 1930 e 1940. Além do sindicato aceitar a redução das conquistas e dos empregos sem chamar à reação, agora os fundos de pensão comprarão 18% das ações desvalorizadas da empresa, comprometendo assim sua capacidade futura de manter o seguro-saúde e aposentadoria dos trabalhadores, das quais depende mais de um milhão de norte-americanos.
Há toda uma campanha na mídia do país tentando apresentar a crise como resultado da “rigidez sindical e dos salários” e dos “privilégios” dos trabalhadores. Ou seja, a culpa da crise da GM é agora apresentada como sendo dos trabalhadores, que chegam a trabalhar até 12 horas por dia. O discurso de que a compra das ações pelos fundos de pensão dá aos sindicatos o estatuto de “sócios-proprietá rios” é ilusório e serve apenas para confundir. Para defender seus empregos, os trabalhadores precisarão ultrapassar os dirigentes corrompidos do UAW e encontrar novas formas de luta.

Obama representa a oligarquia empresarial
Este plano também revela as opções de Barack Obama pela oligarquia financeira, frustrando as ilusões de grande parte da população norte-americana e mundial. Afinal, Obama não é nenhum líder de movimentos sociais, mas sim um dirigente do Partido Democrata, completamente associado ao establishment financeiro e empresarial do país. Se seu governo estivesse realmente preocupado com a manutenção dos empregos não haveria porque então fechar fábricas e demitir, contrariando as expectativas do próprio UAW, que investiu milhões de dólares dos trabalhadores para elegê-lo contra John McCain.
Ao contrário, Obama propõe uma nacionalização pela metade, vai entregar a direção da empresa a uma “equipe de especialistas” de mercado. Está prevista a volta dos investidores privados em 18 meses. Apostando numa direção oposta à criação de empregos, aplica a receita tradicional do capital nas crises, ou seja, o fechamento de fábricas, a redução dos postos de trabalho, dos salários e das conquistas dos trabalhadores. Enquanto isso, o governo já entregou centenas de bilhões de dinheiro público para os mesmos banqueiros e especuladores que criaram a crise, aumentando o déficit público e preparando uma bomba relógio que poderá explodir futuramente sob a forma de inflação.

Modelo de transporte irracional
A crise da GM ainda levanta uma importante questão que é a patente irracionalidade de um modelo de transporte baseado no automóvel. Nos EUA, existem mais de 250 milhões de automóveis para uma população de 310 milhões de habitantes, um quarto da frota mundial. E a frota mundial de carros pode chegar a 2 bilhões até 2030, o que pode se transformar em uma catástrofe ambiental.
É completamente irracional, irresponsável e anti-econômico utilizar milhões de automóveis para transportar apenas um passageiro na ida e volta ao trabalho, como se observa em cidades como São Paulo, apenas porque as montadoras precisam vender mais carros e a indústria mundial do petróleo precisa remunerar seus acionistas.
Por isso, uma das saídas para a GM, sem fechar fábricas e cortar empregos, seria exatamente reconverter grande parte da sua produção para fabricar meios de transporte coletivo não poluidores e equipamentos de geração de energia limpa. Essa é e proposta levantada pelo cineasta Michael Moore, em artigo recente. Segundo ele, uma reconversão desse tipo foi possível durante a Segunda Guerra Mundial e a própria GM suspendeu a produção de automóveis, começando a produzir tanques e carros de combate em poucos meses.
Por fim, tanto a crise global como a quebra da GM só comprovam mais uma vez a completa irracionalidade do próprio sistema capitalista em sua busca de lucros a qualquer custo. A nova crise global do capital está desatando mais uma onda de ataques contra os trabalhadores. Isso deve redobrar os esforços dos socialistas e de toda humanidade pela superação desse sistema e pela construção do socialismo como alternativa, dessa vez com liberdade e humanismo.